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Biografia de Sérgio Godinho é lançada na Feira do Livro PortoUma biografia do músico Sérgio Godinho escrita pelo crítico e jornalista Nuno Galopim vai ser lançada quinta-feira no Porto, no âmbito da Feira do Livro, que arrancou hoje no Pavilhão Rosa Mota.
O livro, «Retrovisor - Uma Biografia Musical de Sérgio Godinho», que a editora Assírio & Alvim coloca ainda esta semana nas livrarias, contou com a colaboração do letrista, compositor e intérprete português, que na quinta-feira participa também no debate «Escritores de Canções» com o músico Jorge Palma.
«Através de um retrovisor podemos olhar o que ficou para trás, mas estamos cientes de um caminho ainda a percorrer à nossa frente, e para o qual projectamos a atenção», lê-se na obra, que destaca o papel de Sérgio Godinho no estabelecer de «pontes entre artes, linguagens, gentes e gerações».
Com mais de 20 álbuns editados desde inícios da década de 1970, e uma vida musical que recua ainda mais atrás no tempo, incluindo obra no cinema, no teatro e nos livros, o artista esteve fora de Portugal (Suíça, França, Holanda, Brasil e Canadá) para ficar longe de uma Guerra Colonial em que não acreditava, regressando em 1974.
Nuno Galopim sublinha que o músico não fez «de uma certa urgência de liberdade e afirmação ideológica o destino único da sua criação, abrindo antes espaço à exploração de histórias vivenciais, de amores, de figuras ficcionais, também de ideias e convicções».
Na biografia, o crítico de música procura perceber o que estimulou tematicamente várias canções de Sérgio Godinho, como cresceram, que vidas ganharam depois em disco, em palco, e por vezes até noutras vozes.
Diário Digital / Lusa
24-05-2006
Algumas letras (HISTÓRIAS) das suas canções que eu adoro:
LISBOA QUE AMANHECE
Cansados vão os corpos para casa
Dos ritmos imitados doutra dança
A noite finge ser
Ainda uma criança de olhos na lua
Com a sua
Cegueira da razão e do desejo
A noite é cega, as sombras de Lisboa
São da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
Amou como se fosse a mais indefesa
Princesa
Que as trevas algum dia coroaram
REFRÃO:
Não sei se dura sempre esse teu beijo
Ou apenas o que resta desta noite
O vento, enfim, parou
Já mal o vejo
Por sobre o Tejo
E já tudo pode ser
Tudo aquilo que parece
Na Lisboa que amanhece
O Tejo que reflecte o dia à solta
À noite é prisioneiro dos olhares
Ao Cais dos Miradoiros
Vão chegando dos bares os navegantes
Amantes
Das teias que o amor e o fumo tecem
E o Necas que julgou que era cantora
Que as dádivas da noite são eternas
Mal chega a madrugada
Tem que rapar as pernas para que o dia
Não traia
Dietriches que não foram nem Marlénes
REFRÃO
Em sonhos, é sabido, não se morre
Aliás essa é a
Única vantagem
De após o vão trabalho
O povo ir de viagem ao sono fundo
Fecundo
Em glórias e terrores e aventuras
E ai de quem acorda estremunhado
Espreitando pela fresta a ver se é dia
E as simples ansiedades
Ditam sentenças friamente ao ouvido
Ruído
Que a noite se acostuma e transfigura
REFRÃO
Na Lisboa que amanhece
É TERÇA FEIRA
É terça feira
E a feira da ladra
Abre hoje às cinco
Da madrugada
E a rapariga
Desce a escada quatro a quatro
Vai vender mágoas
Ao desbarato
Vai vender
Juras falsas
Amarguras
Ilusões
Trapos e cacos e contradições
É terça feira
E das cinzas talvez
Amanhã que é quarta-feira
Haja fogo outra vez
O coração
É incapaz
De dizer
"tanto faz"
Parte para a guerra
Com os olhos na paz
É terça feira
E a feira da ladra
Quase transborda
De abarrotada
E a rapariga
Vende tudo o que trazia
Troca a tristeza
Pela alegria
E todos querem
Regateiam
Amarguras
Ilusões
Trapos e cacos e contradições
É terça feira
E a feira da ladra
Fica enfim quieta
E abandonada
E a rapariga
Deixou no chão um lamento
Que se ergue e gira
E roda com o vento
E rodopia
E navega
E joga à cabra-cega
É de nós todos
E a ninguém se entrega
A NOITE PASSADAA noite passada acordei com o teu beijo
descias o douro e eu fui esperar-te ao tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti: "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste
a noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo, dormias lá no fundo
faltou-me o pé, senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos
a noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti, disse baixinho "olá"
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então tu olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste".