As minhas aventuras na república italiana

18 Junho 2006

UM POEMA POR SEMANA: MIGUEL TORGA

ORFEU REBELDE

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternuras.

Bicho instintivo que adivinha a morte
Num corpo de poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.


Miguel Torga
In Orfeu Rebelde

10 Junho 2006

DOIS POEMAS ESTA SEMANA: CAMÕES E FERNANDO PESSOA

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, deixo aqui dois poemas magníficos:

LXXXI
Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões





Primeira Parte - BRASÃO
II - Os Castelos

Sexto:
D. DINIS

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

in Mensagem, Fernando Pessoa
(9-2-1934 )

01 Junho 2006

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Em Itália não se festeja o dia mundial da criança, ou melhor, é a “giornata mondiale per i diritti dei bambini”, mas, normalmente, no dia 1 de Junho não se fazem actividades como em Portugal.
Eu vou festejar com o meu filho: vamos ler muito e fazer um grande desenho acerca deste poema:

O limpa-palavras

Limpo palavras.
Recolho-as à noite, por todo o lado:
a palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.
Trato delas durante o dia
enquanto sonho acordado.
A palavra solidão faz-me companhia.

Quase todas as palavras
precisam de ser limpas e acariciadas:
a palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.
Algumas têm mesmo de ser lavadas,
é preciso raspar-lhes a sujidade dos dias
e do mau uso.
Muitas chegam doentes,
outras simplesmente gastas, estafadas,
dobradas pelo peso das coisas
que trazem às costas.

A palavra pedra pesa como uma pedra.
A palavra rosa espalha o perfume no ar.
A palavra árvore tem folhas, ramos altos.
Podes descansar à sombra dela.
A palavra gato espeta as unhas no tapete.
A palavra pássaro abre as asas para voar.
A palavra coração não pára de bater.
Ouve-se a palavra canção.
A palavra vento levanta os papéis no ar
e é preciso fechá-la na arrecadação.

No fim de tudo voltam os olhos para a luz
e vão para longe,leves palavras voadoras
sem nada que as prenda à terra,
outra vez nascidas pela minha mão:
a palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.

A palavra obrigado agradece-me.
As outras, não.
A palavra adeus despede-se.
As outras já lá vão, belas palavras lisas
e lavadas como seixos do rio:
a palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.
Vão à procura de quem as queira dizer,
de mais palavras e de novos sentidos.
Basta estenderes um braço para apanhares
a palavra barco ou a palavra amor.

Limpo palavras.
A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.
Recolho-as à noite, trato delas durante o dia.
A palavra fogão cozinha o meu jantar.
A palavra brisa refresca-me.
A palavra solidão faz-me companhia.

Álvaro Magalhães, O limpa-palavras e outros poemas




Porque como diz Gianni Rodari* na sua Grammatica della Fantasia:

Tal como uma pedra que lançamos para um charco, “uma palavra, lançada ao acaso para uma mente, produz ondas de superfície e de profundidade, provoca uma série de reacções em cadeia, envolvendo na sua queda sons e imagens, analogias e recordações, significados e sonhos...”


*GIANNI RODARI (1920-1980)
Um dos maiores escritores para a infância. Grande feiticeiro da palavra, revolucionou profundamente a literatura infantil. Em 1970 recebeu o Prémio Andersen.

31 Maio 2006

LER POR AÍ

UM LUGAR PARA CADA LIVRO
CADA LIVRO NO SEU LUGAR

É hoje apresentado o site Ler por aí onde podemos encontrar boas sugestões de leitura para as nossas viagens (antes, durante e depois).
A sugestão de Maio é:
Vale Abraão, de Agustina Bessa-Luís
Guimarães Editores

a ler no Douro, obviamente.

27 Maio 2006

UM POEMA POR SEMANA: HOJE MÁRIO CESARINY

you are welcome to elsinore

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny de Vasconcelos
In Pena Capital

26 Maio 2006

O "MEU" PROGRAMA DA FEIRA

E, finalmente, há vida em www.feiradolivrodelisboa.pt!!!

Estive a ler todo o programa da Feira do Livro de Lisboa e, se eu estivesse em Portugal nesta altura, era a estas iniciativas que eu queria ir:

DIA 31 DE MAIO
18:30
Agustina Bessa-Luís, "Sobre os livros e outras coisas: A escrita como reflexo da sociedade, o que fazemos e como lemos"
Local: Auditório Organização: Câmara Municipal de Lisboa/Cultura
Apresentação de Inês Pedrosa.

DIA 2 DE JUNHO
18:30
Eduardo Lourenço, "A importância de se chamar Pessoa: Fernando Pessoa, o seu universo, o seu legado"
Local: Auditório Organização: Câmara Municipal de Lisboa/Cultura
Apresentação de Francisco José Viegas.

DIA 3 DE JUNHO
18:00
"Curso Breve de Literatura Brasileira"
Local: Foyer Organização: Edições Cotovia
Com Clara Rowland, Abel Barros Baptista e José Eduardo Agualusa.
Leitura de poemas pela poetisa brasileira Dora Ribeiro.

DIA 4 DE JUNHO
17:00
Apresentação do Plano Nacional de Leitura, por Teresa Calçada e Isabel Alçada
Local: Auditório Organização: Câmara Municipal de Lisboa/Cultura
Apresentação de Rui Mateus Pereira

DIA 6 DE JUNHO
21:00
Recital "Da Música das Palavras" (canções e poesia), por Carla Vitorino e Ângelo Rodrigues
Local: Auditório Organização: Editorial Minerva

DIA 7 DE JUNHO
20:30
Conferência/Debate, "Portugal na U.E. 20 Anos depois: Que impacto na Cultura?"
Local: Auditório Organização: Comissão EuropeiaPromovido pela Comissão Europeia.
Temas: Balanço dos 20 anos na área cultural; Impacto nos hábitos de "consumo culural" dos portugueses; Cultura europeia, cultura portuguesa: choque ou integração; Política cultural europeia; Papel do livro.
21:00
Lançamento de "463 Tisanas", de Ana Hatherly
Local: Foyer Organização: Quimera

DIA 8 DE JUNHO
20:30
Conferência / Debate, "A Europa: Um livro aberto"
Local: Foyer Organização: Comissão EuropeiaPromovido pela Comissão Europeia. Temas: Que política editorial sobre temas europeus?; A Europa "vende"?; Défice ou excesso de oferta?
Oradores: um editor, um livreiro e o autor Pitta e Cunha.

DIA 10 DE JUNHO
18:30
José Eduardo Agualusa, "Condição Angola: A ideia africana na Europa, o português e o brasileiro, outras formas de se estar angolano"
Local: Auditório Organização: Câmara Municipal de Lisboa/Cultura
Apresentação de Fernando Cayatte.
21:00
"Agostinho da Silva: Portugal, a Lusofonia e o Mundo a haver"
Local: Auditório Organização: Câmara Municipal da Lisboa/Cultura e Organização Associação Agostinho da SilvaPaulo Borges, Renato Epifânio, Miguel Real e Pinharanda Gomes.

DIA 11 DE JUNHO
19:00
Leitura de Contos "Um bom homem é difícil de encontrar", de Flannery O` Connor
Local: Foyer Organização: Cavalo de Ferro


Por sua vez, o PROGRAMA INFANTIL resume-se ao Dia da Criança:

01 Junho
11:30
Peça de Teatro Infantil "O Planeta Dódoi"
Local: Auditório Organização: Câmara Municipal de Lisboa/Ambiente
Subordinado ao tema das alterações climáticas.
16:30
Lançamento do livro "Bemol Saltitante - Um Ratinho ao Piano"
Local: Foyer Organização: QuidNovi
Com um pianista que vai tocar uma partitura muito animada para crianças.
16:30
Apresentação de "O Rei-Menino", de António Torrado
Local: Auditório Organização: Asa Editores
18:30
Apresentação do livro "Agostinho da Silva - Um Conto para Crianças", de Fátima Murta
Local: Auditório Organização: Zéfiro Edições e Actividades Culturais




No site da TSF Online, algumas notícias acerca da Feira e dos serviços que oferece aos visitantes:

CULTURA
Feira do Livro abriu sob o tema «ler é poder»
(...)
Até 13 de Junho estarão à venda, a preços mais baratos, mais de um milhão de livros, correspondendo a cerca de cem mil títulos.
(...)
A abertura oficial da Feira contou com a presença da ministra da Cultura e do presidente da câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues. Isabel Pires Lima salientou que o sector da edição tem «muita vitalidade e a maior importância nas indústrias culturais portuguesas». Apesar desta realidade, «trata-se de um sector que não se conhece bem a si próprio, por falta de dados», acrescentou Isabel Pires de Lima, recordando que o seu ministério já se comprometeu a lançar um estudo sobre o livro e os hábitos de leitura em Portugal. Na abertura do certame, que descreveu como «a maior montra de livros do país», Isabel Pires de Lima recordou que, em 2007, será lançado pelo Ministério da Cultura um prémio de edição. A finalizar a sessão, a governante destacou o papel do livro «na capacidade de ler o mundo e construir alternativas», reforçando que o acesso às obras «é fundamental para o exercício de uma cidadania plena».
A sessão inaugural da Feira do Livro contou hoje com uma intérprete de linguagem gestual, o que se insere na política da Câmara Municipal de Lisboa para o certame. A edição deste ano do certame dispõe de informação on-line, em formato digital, em braille e tradução em língua gestual portuguesa nos vários eventos, havendo ainda a hipótese de encaminhamento personalizado por uma equipa de voluntários preparados para o efeito. Segundo a autarquia, a intenção é que «os cidadãos portadores de dificuldades específicas possam aceder à informação electrónica e às disponibilidades bibliográficas dos diferentes stands, tanto quanto possível em igualdade de circunstâncias com as pessoas não afectadas por tais condicionalismos».

25 Maio 2006

NOTÍCIAS DA FEIRA DO LIVRO

Enquanto o site www.feiradolivrodelisboa.pt continua escandalosamente vazio, encontrei estas notícias no Público online:


Feiras do Livro de Lisboa e Porto

A calçada do Parque Eduardo VII, em Lisboa, e o Pavilhão Rosa Mota, no Porto, voltam a receber as suas respectivas Feiras do Livro. Destaque dado a um país lusófono Angola, é a principal novidade; o Porto homenageia Mário Cláudio; Casa Fernando Pessoa é responsável pelo programa cultural de Lisboa
A escolha de Angola é uma novidade da feira que se quer alargar à lusofonia, e este é o primeiro país convidado porque o critério segue a ordem alfabética, disse em Lisboa António Baptista Lopes, presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros. A APEL é responsável pelas feiras, mas em Lisboa partilha a organização com a União de Editores Portugueses (UEP) e a câmara municipal.
Pelas feiras vão passar, durante quase três semanas, autores angolanos, como José Eduardo Agualusa e Ana Paula Tavares, numa iniciativa desenvolvida em colaboração com a embaixada daquele país, que, porém, ainda não apresentou o seu programa.
No Porto, a literatura angolana vai estar em debate (Portugal/Angola. Este mar que nos une) no dia 30, às 21h30, com os escritores Francisco José Viegas (também director da Casa Fernando Pessoa), Manuel Jorge Marmelo e os já referidos José Eduardo Agualusa e Ana Paula Tavares. E em Lisboa, Agualusa fala no dia 10 de Junho sobre Condição Angola: A ideia africana na Europa, o português e o brasileiro, outras formas de se estar angolano.

Pelo quarto ano consecutivo, a Feira do Porto homenageia um escritor portuense, cabendo este ano a vez ao romancista, poeta, dramaturgo e ensaísta Mário Cláudio, Prémio Pessoa em 2004.
No espaço do Café Literário vai estar exposta a obra do escritor e objectos pessoais. A 10 de Junho há a leitura de excertos das suas obras pelo actor António Durães e um debate com Carlos Reis, Maria João Reynaud, Miguel Veiga, Valter Hugo Mãe e o próprio Mário Cláudio.
Da programação do Porto, destaca-se o ciclo Diálogo de Gerações, uma série de encontros onde dois escritores de gerações diferentes conversam com o público e por onde vão passar nomes como José Saramago, Agustina Bessa-Luís, José Luís Peixoto, Nuno Júdice e Inês Pedrosa.
Apesar de este ano não haver subsídio da Câmara Municipal do Porto, a feira aposta na presença de um número-recorde de autores, mais de 200, que apresentam novas obras ou participam em sessões de autógrafos nas mais de 80 editoras, divididas por 115 stands (menos cinco do que no ano passado).
A Feira do Livro do Porto realiza-se, como habitualmente, nos jardins do Palácio de Cristal, numa área de três mil metros quadrados divididos entre o Pavilhão Rosa Mota e uma tenda montada no exterior. As portas abrem dia 24 de Maio às 16h00.

Em Lisboa o Modelo é Igual
A organização de uma parte do programa cultural da feira de Lisboa foi entregue ao director da Casa Fernando Pessoa (estrutura dependente da CML), Francisco José Viegas, que disse ontem que "não há muito a inventar" em relação ao modelo, que é "de transição". Referindo que a feira é um momento "essencial de encontro entre editores, autores e leitores", acrescentou que só em 2007 haverá alterações.
A feira tem um novo auditório e uma nova cafetaria. Fica, como os anteriores, no topo do Parque Eduardo VII e foi desenhado pelos arquitectos António Guedes Guimarães e Mari Viinikainen. Os stands foram pintados com as cores claras do arco-íris: pela alameda espalham-se os pavilhões cor-de-rosa, salmão, verdes, amarelos...
São 207 stands, menos 12 do que no ano passado, e pertencem a 121 participantes, também menos (11) do que em 2005. Menos porque, segundo António Baptista Lopes, ainda se vive uma situação de crise e no ano passado, "em termos de volume de negócios", a feira "não correspondeu às expectativas para um conjunto alargado de editoras".
O investimento da CML - um milhão de euros - foi o mesmo de 2005, disse o vereador da Cultura, José Amaral Lopes.
No auditório haverá debates programados pelas editoras e pela CML - com temas que vão da Energia à União Europeia -, lançamentos, autores a falarem sobre os seus livros (Agustina Bessa-Luís, Miguel Guilherme, Eduardo Lourenço) ou concertos (D-Mars, Fuse, Legendary Tiger Man ou SpaceBoys).
PÚBLICO

O ESCRITOR DE HISTÓRIAS

No Diário Digital:

Biografia de Sérgio Godinho é lançada na Feira do Livro Porto


Uma biografia do músico Sérgio Godinho escrita pelo crítico e jornalista Nuno Galopim vai ser lançada quinta-feira no Porto, no âmbito da Feira do Livro, que arrancou hoje no Pavilhão Rosa Mota.
O livro, «Retrovisor - Uma Biografia Musical de Sérgio Godinho», que a editora Assírio & Alvim coloca ainda esta semana nas livrarias, contou com a colaboração do letrista, compositor e intérprete português, que na quinta-feira participa também no debate «Escritores de Canções» com o músico Jorge Palma.
«Através de um retrovisor podemos olhar o que ficou para trás, mas estamos cientes de um caminho ainda a percorrer à nossa frente, e para o qual projectamos a atenção», lê-se na obra, que destaca o papel de Sérgio Godinho no estabelecer de «pontes entre artes, linguagens, gentes e gerações».
Com mais de 20 álbuns editados desde inícios da década de 1970, e uma vida musical que recua ainda mais atrás no tempo, incluindo obra no cinema, no teatro e nos livros, o artista esteve fora de Portugal (Suíça, França, Holanda, Brasil e Canadá) para ficar longe de uma Guerra Colonial em que não acreditava, regressando em 1974.
Nuno Galopim sublinha que o músico não fez «de uma certa urgência de liberdade e afirmação ideológica o destino único da sua criação, abrindo antes espaço à exploração de histórias vivenciais, de amores, de figuras ficcionais, também de ideias e convicções».
Na biografia, o crítico de música procura perceber o que estimulou tematicamente várias canções de Sérgio Godinho, como cresceram, que vidas ganharam depois em disco, em palco, e por vezes até noutras vozes.
Diário Digital / Lusa
24-05-2006



Algumas letras (HISTÓRIAS) das suas canções que eu adoro:

LISBOA QUE AMANHECE

Cansados vão os corpos para casa
Dos ritmos imitados doutra dança
A noite finge ser
Ainda uma criança de olhos na lua
Com a sua
Cegueira da razão e do desejo
A noite é cega, as sombras de Lisboa
São da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
Amou como se fosse a mais indefesa
Princesa
Que as trevas algum dia coroaram

REFRÃO:
Não sei se dura sempre esse teu beijo
Ou apenas o que resta desta noite
O vento, enfim, parou
Já mal o vejo
Por sobre o Tejo
E já tudo pode ser
Tudo aquilo que parece
Na Lisboa que amanhece


O Tejo que reflecte o dia à solta
À noite é prisioneiro dos olhares
Ao Cais dos Miradoiros
Vão chegando dos bares os navegantes
Amantes
Das teias que o amor e o fumo tecem
E o Necas que julgou que era cantora
Que as dádivas da noite são eternas
Mal chega a madrugada
Tem que rapar as pernas para que o dia
Não traia
Dietriches que não foram nem Marlénes

REFRÃO

Em sonhos, é sabido, não se morre
Aliás essa é a
Única vantagem
De após o vão trabalho
O povo ir de viagem ao sono fundo
Fecundo
Em glórias e terrores e aventuras
E ai de quem acorda estremunhado
Espreitando pela fresta a ver se é dia
E as simples ansiedades
Ditam sentenças friamente ao ouvido
Ruído
Que a noite se acostuma e transfigura


REFRÃO

Na Lisboa que amanhece







É TERÇA FEIRA

É terça feira
E a feira da ladra
Abre hoje às cinco
Da madrugada

E a rapariga
Desce a escada quatro a quatro
Vai vender mágoas
Ao desbarato
Vai vender
Juras falsas
Amarguras
Ilusões
Trapos e cacos e contradições

É terça feira
E das cinzas talvez
Amanhã que é quarta-feira
Haja fogo outra vez
O coração
É incapaz
De dizer
"tanto faz"
Parte para a guerra
Com os olhos na paz

É terça feira
E a feira da ladra
Quase transborda
De abarrotada

E a rapariga
Vende tudo o que trazia
Troca a tristeza
Pela alegria
E todos querem
Regateiam
Amarguras
Ilusões
Trapos e cacos e contradições

É terça feira
E a feira da ladra
Fica enfim quieta
E abandonada

E a rapariga
Deixou no chão um lamento
Que se ergue e gira
E roda com o vento
E rodopia
E navega
E joga à cabra-cega
É de nós todos
E a ninguém se entrega







A NOITE PASSADA

A noite passada acordei com o teu beijo
descias o douro e eu fui esperar-te ao tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti: "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

a noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo, dormias lá no fundo
faltou-me o pé, senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

a noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti, disse baixinho "olá"
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então tu olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste".